De costas para o mar

O Atlântico aqui não é aquela superfície esverdeada que deixei ao pé de casa. Visto daqui parece um bolo raso coberto de creme de acúçar. Há espuma que rebenta em camadas sobre a superfície da água fria numa extensão larga. Visto da costa, o mar é branco. Azul só o céu. Necochea é uma praia a sul de Mar Del Plata, um cochicho de praia se comparada com a outra, conhecida pelo mundo. A água é fria, o Verão fresco, o vento constante. Acabada de aterrar no Verão, trago ainda nos ossos o frio do Janeiro europeu e a humidade da serra de Sintra. Olho para a praia imensa, para o mar vazio, as dunas onde passeiam moto4 como formigas, jipes que enchem o areal escuro e se fecham em círculo, quais caravanas do Oeste. Bebo mate, bebo mates, o amargo, (o que bebe a gente rija do sul) e o doce (bebida risível, dizem os que vivem na Patagónia, para desmerecer os porteños que o bebem com dedicação). Provo um e outro sem saber da distinção. Aponto o amargo como o predilecto e logo, nesse gesto, desenho um risco que separa o sul do norte, os que vivem esquecidos nas solidões patagónicas varridas pelo vento e os urbanos de Buenos Aires. Ficamos espalhados nas cadeiras, dispostas em círculo, a beber mate no areal, com o termo da água quente a rodar e a caneca do mate a passar de mão em mão "sempre pela direita". Escuto o que me dizem, as explicações da bebida que gostei logo no primeiro golo. Depois avanço pela beira-mar e vou molhar os pés na água fria. Não há ninguém na água. Não há ninguém a olhar o mar. A caravana dos jipes enrolada no círculo que encerra o outro círculo de cadeiras vira as costas ao mar. É de lá que sopra o vento que levanta a areia. Necochea é a primeira paragem de dias, na Argentina.
De Buenos Aires até aqui rolei a direito por uma estrada monótona e lisa que se estende por 600 e tal quilómetros de uma terra plana e verde onde pastam vacas.

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