Valparaíso

Levo na cabeça imagens de uma cidade de ouro, uma cidade de riquezas e culturas, um sítio onde se passeiam marinheiros de dentes a luzir e mulheres perdidas com bocas sensuais. Pelas ruas de Valparaíso imagino os endinheirados do negócio dos mares a passear de chapéu alto e correntes pesadas a forçar as casas dos coletes de fazenda. No início do século XX Valparaíso devia ser um manancial de gente que ia e vinha no empedrado de ruas ricas. Imagino isso tudo e de repente estou ali, em Valparaíso, no cheiro a podre das ruas que se inclinam perigosamente para o mar, vejo as crianças de bochechas rosadas e as mulheres jovens com ar resignado, ouço o barulho do porto que sobe pelas ruelas íngremes e se espalha por toda aquela cidade de casas de madeira. Uma encosta imensa de casas de madeira com um céu baixo de fios que ligam casa a casa, rua a rua. Vista de longe, Valparaíso não é mais do que um imenso bairro de barracas, um declive de miséria, um amontoado de gente escura.

Não acredito que algum dia tenham lá vivido os marinheiros de sorriso dourado, as putas de lábios sensuais e grande tetas redondas ou os endinheirados burgueses dos barcos. Valparaíso deve ter sido sempre alguma coisa mais individual e secreta, uma cidade onde tudo escorrega para o porto e um imenso porto de onde nasce o barulho para o mundo. Percorri as ruas em busca da casa do poeta, desci nos ascensores de madeira com carris pendurados em traves de madeira fina, vi o casario pintado em cores ingénuas, ouvi o canto da sereia que se escapa do porto e percebi porque alguém chamou a esta cidade Paraíso.

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