Sunday, January 07, 2007

Ode a Valparaíso




Neruda sentava-se num cadeirão baixo frente a uma janela escancarada sobre os telhados de Valparaíso, puxava a sua caneta de tinta verde, uma folha de papel e escrevia::

Valparaíso

que disparatado

és,

que louco,

porto louco,

que cabeça

com montes,

desgrenhada,

não consegues nunca

pentear-te,

nem vestir-te,

a vida

sempre

te surpreendeu,

sempre

te acordou a morte,

em camisa,

de compridas ceroulas

com franjas coloridas,

despido

com um nome

tatuado na barriga,

e de chapéu,

o terramoto apanhou-te,

correste

enlouquecido,

(...)

derrubar-te

não pôde,

porque no teu peito austral

estão tatuadas

a luta,

a esperança,

a solidariedade

e a alegria

como âncoras

que resistem

às ondas da terra.

Depois, subia com dificuldade as escadas estreitas e espreitava outra vez a cidade pelo óculo redondo de vidro riscado que trouxera de um navio qualquer.

No estofo esbranquiçado do cadeirão ficaram até hoje as manchas de tinta verde.

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