
Neruda sentava-se num cadeirão baixo frente a uma janela escancarada sobre os telhados de Valparaíso, puxava a sua caneta de tinta verde, uma folha de papel e escrevia::
Valparaíso
que disparatado
és,
que louco,
porto louco,
que cabeça
com montes,
desgrenhada,
não consegues nunca
pentear-te,
nem vestir-te,
a vida
sempre
te surpreendeu,
sempre
te acordou a morte,
em camisa,
de compridas ceroulas
com franjas coloridas,
despido
com um nome
tatuado na barriga,
e de chapéu,
o terramoto apanhou-te,
correste
enlouquecido,
(...)
derrubar-te
não pôde,
porque no teu peito austral
estão tatuadas
a luta,
a esperança,
a solidariedade
e a alegria
como âncoras
que resistem
às ondas da terra.
Depois, subia com dificuldade as escadas estreitas e espreitava outra vez a cidade pelo óculo redondo de vidro riscado que trouxera de um navio qualquer.
No estofo esbranquiçado do cadeirão ficaram até hoje as manchas de tinta verde.

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