A Casa na Areia
Os poetas sabem que as mulheres são casas e que as casas são mulheres. Habitam-se, deixam-se habitar e acolhem, abrigam, protegem. Mesmo as mulheres que o não fazem trazem nelas a promessa de um abrigo.Das três casas do poetas - Chascona, Sebastiana e a Isla Negra - duas têm evocam mulheres.
A de Valparaíso, Sebastiana, pendurada num morro sobre o mar, a de Santiago, Chascona, secreta , virada para dentro de si, e a da Isla Negra, uma casa banhada pelo Pacífico e onde o mar não se cansa de bater. A Isla Negra (na imagem), onde o poeta e a mulher estão sepultados, exibe bem as saudades que um morto pode ter da Terra.Toda a gente sabe que o Capitão adorava barcos mas tinha um medo tenebroso do mar, toda a gente sabe que o poeta coleccionava carrancas de proa, conchas, instrumentos musicais, garrafas e um sem fim de outras coisas. Toda a gente sabe isso mas é preciso estar ali, na Isla Negra, olhar aquele mar que se estende escuro entre pinheiros e pedras e ouvir a voz funda de Neruda:"O Oceano Pacífico saía do mapa. Não havia onde pô-lo. Era tão grande, desordenado e azul que não cabia em sítio nenhum. Por isso o deixaram em frente da minha janela."

Dizia isto mas olhar as ondas lhe bastava. No areal que se espraia à frente da casa está encalhado no cimento duro um barco que Neruda transformou em bar. Convidava os amigos para beber uns copos a bordo e quando o álcool fazia o seu efeito o poeta sentia-se então no mar alto em dia de tempestade.Essas épicas bebedeiras foram o mais próximo que esteve do conhecimento prático dos mares.

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