Tuesday, January 09, 2007

Onde estão?


Providência é um bairro cosmopolita de Santiago. Avenidas largas, árvores, passeios limpos, gente endinheirada que caminha entre o trânsito frenético. Há uma barulho demencial na cidade mas ninguém parece reparar. Leio os jornais sentada num banco de uma avenida e depois de uns segundos também me alheio do barulho. Jovens de calções passeiam-se pela cidade de livro debaixo do braço e o ar de quem tem todo o tempo do mundo. O rio Mapuche é um leito de lama que vai engrossando à medida que o dia avança e o sol ganha calor para derreter as neves dos Andes. Há o barulho.... o barulho como pano de fundo.
Percebe-se pelos bairros modernos o tamanho da cidade. Como se todo o Chile aqui vivesse (mas isso vou descobri-lo depois). O metro é um moderno labirinto só disponível para alguns e nas ruas o ondular das gentes é igual ao de qualquer cidade em hora de ponta. A meio de uma Avenida, a faixa separadora está atapetada com fotocópias de fotografias a preto e branco de rostos que, pela fraca qualidade da imagem, se parecem todos. São os desaparecidos do regime de Pinochet. Há quem lute contra a impunidade e queira ver esses crimes castigados. Pinochet ainda estava vivo (foi há quase um ano) mas ninguém esperava verdadeiramente vê-lo no banco dos réus. Em contrapartida La Tercera, o jornal mais lido, perdia espaço na primeira página a contar as aventuras da filha do ditador nas terras do tio Sam.
É em dias de sol como este que mais me custa imaginar o silêncio a que foram condenados os injustiçados e as suas família. Olho os rostos de quem passa e não consigo ver neles um fundo de medo que os explique nem uma revolta que os cegue.
Michèle Bachete ganhou ontem as eleições. Uma mulher à frente do Chile é também uma imagem de exportação.

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