Wednesday, January 10, 2007

Puerto Natales
A cidade adormecida

Que cidade é esta que o vento abana? Que frio é este que me chega aos ouvidos num silvar insistente? Que magia é esta que me rodeia? Casas de madeira e chapa, quase barracas, plantadas entre o nada e coisa nenhuma. Há o silêncio nas ruas varridas pelo vento (perdão, há o silvo do vento) não há vivalma nas ruas brancas que descem para o braço de Pacífico chamado Seno daUltima Esperanza, há o frio, o vento, sempre o vento.
Há que esperar pela chegada do barco para ver as ruas ganharem alma, turistas, gente que descarrega do barco a fruta e tudo o resto que vem de longe. Cruzamo-nos com caras coradas, curtidas pelo vento das caminhadas, os locais fecham-se nas casas-barracas aquecidas para além do normal, onde gatos aboboram nas janelas baixas.
Há o café Alhambra, pintado de cor de rosa, onde finalmente conseguimos beber um café que parece mesmo um café. O dono tem o escritório montado no meio do estabelecimento, uma secretária e uma cadeira, onde agora se senta um caniche branco enquanto o dono, enfeitado de jóias e com requebros de vedeta, exibe a sua diferença na cidade perdida a sul.
Há o museu, que mostra a história da cidade, uma história que começou ontem com a chegada dos europeus e que remata com um ou dois quadros os séculos em que os nativos eram os reis da imensidão onde agora pastam ovelhas que ficam nos campos desde que nascem até serem abatidas. Noite e dia, Inverno e Verão. De vez em quando há ovelhas que morrem...congeladas. Patrizio leva-nos de passeio pelas terras desoladas, e lembra o Inverno rigoroso de 1995 quando uma tempestade se abateu sobre o sul e um manto branco cobriu todo o gado. Milhares de cabeças de gado afundadas na neve que atingiu os cinco metros de altura.

Do aeroporto de Punta Arenas a Puerto Natales viemos por uma estrada de vento rumo ao céu, uma estrada toda céu, interminável numa planura cinzenta. Como um risco que segue em frente, sempre em frente, a direito, rumo a coisa nenhuma. Ovelhas, avestruzes, cavalos pastam aqui e ali nos campos, separados por quilómetros. Os bichos têm o mesmo ar desolado da paisagem. A estrada é plana, boa mas a carrinha não pode arriscar-se a mais de 100 km por causa do vento que a empura para fora da estrada. Dario conhece o vento, trá-lo tatuado na cara escura. Uma rajada sacode a carrinha, Dario endireita a direcção, o vento volta, dá um pontapé mesmo a meio, Dario, paciente, puxa a carrinha para a estrada. O jogo prossegue nos 350 quilómetros da viagem. Como um pulso de ferro: Dario agarrado ao volante a tentar antecipar o golpe do vento e nós seguindo ali dentro, embalados, olhando pelos vidros a paisagem monótona. Terra plana, erva rasteira dobrada pelo vento, de vez em quando árvores espectrais cobertas de líquenes que crescem e se agitam ao vento,"barbas de abuelo", aponta Dario. Tehuelche é o único povoação que fica entre entre as duas cidades: uma terra esquecida de casas castanhas com telhado verde, ou brancas com telhado preto ou amarelo, ou azul... Todas pequenas, de chapa, mesmo a igreja, a escola, e a estrada a passar-lhes ao lado. Lá atrás ficou uma enorme mancha líquida. "Lo Estrecho de Magallanes". Dario é de poucas palavras mas indica com o queixo a água cinza, o mar nevoento, que parece qualquer coisa distante e sólida. E nós tentados a explicar que Magallanes se diz Magalhães e era português...Depois, à medida que Puerto Nateles se aproxima volta a água, outro braço de mar, o Seno Ultima Esperanza, onde os cisne de pescoço preto se baloiçam.

A estância Puerto Consuelo é uma imensidão de terra onde vivem ainda os herdeiros de Cap. Hermann Eberhard, alemães destemidos que chegaram aqui no fim do século XIX. Com eles se começa a contar a história da região, são a aristocracia de Puerto Natales e, tal como a restante aristocracia, não se misturam com os outros locais. Mantêm o olhar aloucado e o cabelo ruivo do Cap. Hermann e mesmo que ridiculamente deslocados nesta terra onde cheira a frio e a sebo das ovelhas, os ruivos alemães não dispensam luxos que a Europa já esqueceu. No museu de Puerto Natales há chapéus de veludo, espelhos com cabo em prata, porcelanas finas e um sem fim de luxos que os alemães trouxeram até às terras inóspidas do sul da Terra. Também há fotografias comidas pelo tempo da família Eberhard com ar sorridente recebendo visitas da Europa, mas tudo isso deve ter sido para a fotografia. Quando não recebiam visitas no seu território a perder de vista viviam nm isolamento gelado, julgando-se mais do que o resto da população. Até hoje, três gerações depois, os traços mantêm-se iguais. Patrizio aponta uma foto a sépia do capitão e ri: "Conheço o filho e o neto dele e são iguais a ele".
Entro numa loja e penso que recuei no tempo. Há o célebre banco onde o funcionário se sentava na minha infância para ajudar os clientes a calçar os sapatos, há um cheiro a velho, há produtos que já não se vendem em mais lado nenhum. Pela rua, via nas janelas de casas particulares ofertas estranhas: potes de doce de ruibardo (um legume parecido com a alface que faz um doce ácido), calçado usado...
No restaurante onde comemos uma entrada de loucos e congro há o luxo das grandes cidades, no espaço de Internet onde vamos mandar mensagens para os amigos há livros em todas as línguas, nas ruas há gatos às portas de casas, guardados pelas donas que espreitam pelas janelas...
O vento amaina ao fim do dia mas noite tarda quando é Verão como agora. Jantamos e vimos para o hotel antes do vento acordar de novo e ameaçar levar consigo o telhado de chapa ondulada. Dionne Warwick canta "I know I never love this way again"e a luz branca do verão austral inunda a rua Manuel Bulnes.

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